Cavalaria no Brasil

Adaptado do depoimento do Irmão Cláudio Felipe Alexandre Magioli Núñez

     [A idéia de trazer os “Nobres Cavaleiros da Ordem Sagrada dos Soldados Companheiros de Jacques DeMolay”, ou simplesmente Ordem da Cavalaria, foi do Irmão Max Rodrigues Pereira, então Mestre Conselheiro Estadual do Rio de Janeiro. O Irmão Max me convidara para auxiliá-lo nessa empreitada, tendo o projeto sido apresentado ao então Grande Mestre Alberto Mansur, a fim de receber a aprovação do Supremo Conselho da Ordem DeMolay para o Brasil.

     Estudou-se quem seria o corpo maçônico patrocinador de tão augusta empreitada. Por melhor representar o espírito da cavalaria e de tradição maçônica no Brasil, foi selecionado o Supremo Conselho do Brasil do grau 33º para o Rito Escocês Antigo e Aceito, fundado em 1833 por Francisco Gê Acayaba Montezuma. Desejava-se assim que o “filosofismo DeMolay” nascesse no interior do filosofismo maçônico.

     O Soberano Grande Comendador, Moacyr Arbex Dinamarco, delegou essa incumbência ao seu Grande Lugar-Tenente Comendador, Coronel Ney Coelho Soares. O Tio Ney, em seu jeito ímpar, tão inteligente e modesto, prontamente abraçou a causa da Cavalaria. Dedicou-se com tanto afinco nesta missão que deveria ser considerado o primeiro Nobre Cavaleiro do Brasil.

     A dedicação e o amor do Tio Ney transformou um antigo sonho DeMolay em uma pujante realidade. Dedicou-se a todos os pormenores na elaboração dos primeiros paramentos da Cavalaria no Brasil, confeccionando colares, jóias, faixas, estandarte e as Sete Grandes Luzes. O Tio Ney muito se sensibilizou ao saber que a Ordem da Cavalaria praticamente se havia extinguido na história DeMolay mundial, e todos sabiam que esse fora o único ritual iniciático escrito pelo próprio Tio Land. Portanto, o espírito da Cavalaria brasileira era de renascimento e de devoção ao fundador Mundial – a prática do ritual da Cavalaria seria um tributo vivo ao Frank Sherman Land.

     Os primeiros rituais dos Nobres Cavaleiros e do grau do Ébano chegaram ao Brasil por intermédio do Tio Alberto Mansur, mas como conferir os graus aos DeMolays ativos se não havia nenhum Nobre Cavaleiro regularmente investido em território brasileiro? Seguindo a tradição das antigas Ordens da Cavalaria e do surgimento das altas oficinas do filosofismo maçônico, o Tio Mansur fez a minha própria investidura mediante conferência por comunicação. Na presença do Grande Mestre da Ordem DeMolay, o juramento dos Cavaleiros foi realizado ainda em inglês, diante de uma Bíblia, acrescidas as palavras:

“Prometo e juro que cumprirei a tarefa da tradução fiel dos Rituais da Ordem da Cavalaria e da ordem do Ébano; prometo e juro que empenharei todos os meus esforços na criação e na introdução da Ordem da Cavalaria no Brasil, no mais breve tempo possível, para que todos os DeMolays sejam regularmente investidos conforme reza a verdadeira tradição dos Nobres Cavaleiros.”

     No mesmo dia, o Tio Mansur autorizou a escolha de mais doze Seniores DeMolays que, depois de traduzidos os Rituais, seriam investidos também por comunicação. Estes doze Irmãos realizaram a primeira investidura da Ordem da Cavalaria no Brasil – os “Nobres Cavaleiros originais”.

     Os paramentos e materiais litúrgicos do primeiro Convento estavam prontos. A investidura dos doze seniores ocorreu no dia sete de agosto de 1993. Já utilizando a espada da nobreza, na presença das Sete Grandes Luzes e do altar dos Nobres Cavaleiros, com suas Esporas Douradas, o Manto da Cavalaria e da Coroa da Juventude, diante da Bíblia Sagrada, após o juramento solene, os Nobres Cavaleiros nasciam.

     Faltava a escolha do nome para o primeiro Convento. Muitos nomes foram cogitados: Rei Athur, Galahaad, Gui D’Auvergnie, Lancelot, Ivanhoé e outros. Porém a inspiração veio do Irmão Armando Mattoso Millem, que mais tarde se tornaria o primeiro Presidente da Associação Alumni Brasil. O nome sugerido foi “Sir Percival de Gales”, em homenagem ao cavaleiro mais puro, casto e humilde da Távola Redonda – o único a alcançar o castelo do Santo Graal. Nosso primeiro Convento deveria ter como patrono aquele que representa os mais altos valores da Cavalaria.

     É interessante ressaltar que muitos dos materiais litúrgicos foram presentes de DeMolays posteriormente investidos na Ordem da Cavalaria. Max Rodrigues presenteou o Convento com o castiçal de sete velas; Fábian Rodrigo Magioli Núñez presenteou com as esporas douradas – espuelas de los Huasos, típica da região interiorana chilena, terra de seus ancestrais; o Manto da Cavalaria foi presenteado pelo Irmão Yatã Gomes Ferre, ex-Mestre Conselheiro do capítulo Guy D’Auvergnie; o primeiro conjunto de velas verdes, pelo Irmão Elias José Salomão; a Bíblia Sagrada de cor verde foi um presente do Tio Ney.

     O Irmão Adriano Alves Marreiros, tenente do Exército Brasileiro e fundador do Capítulo “Agulhas Negras”, ensinou aos Cavaleiros o protocolo para uso e apresentação de armas, conforme tradição militar. O Irmão Natanael Damasceno muito auxiliou os Nobres Cavaleiros, atuando como verdadeiro “Protocolista-Mor”, encarregando-se de todos os detalhes administrativos e da cerimônia de investidura. O Irmão Alexandre José de Araújo foi escolhido como Sentinela por já ser Mestre maçom. O Irmão Paulo Heitor Guglielmo foi nomeado Porta-Estandarte por ter sido duas vezes Mestre Conselheiro de um Capítulo DeMolay, representando o ideal de patriotismo. O Irmão Marcos Machado foi nomeado Sacristão, responsável por apresentar “as luzes”, simbolizando o primeiro Capítulo DeMolay patrocinado por uma Loja Simbólica – o Capítulo “Barra Mansa” – e a primeira Corte de Chevaliers do Brasil – “Grão-Mestre Arlindo dos Santos”. O Irmão Jorge Marcelo foi escolhido para atuar junto à investidura no grau do Ébano, por sua famosa e conhecida performance artística. O Irmão Armando Mattoso Millem serviu como Protocolista, escrevendo a primeira ata a caneta-tinteiro, como uma lembrança às antigas tradições. O Irmão Márcio Nogueira Costa apresentou um estudo ritualístico e esotérico dos antigos cavaleiros, de forma que todos pudessem se alinhar com o espírito da Cavalaria original. O Irmão Renato do Couto Pinho, natural do Estado do Acre, foi nomeado Primeiro Diácono, responsável por receber os viajantes de terras longínquas.

     A primeira tarefa dos Cavaleiros Originais foi organizar a grande investidura do Convento “Sir Percival de Gales”, a primeira do Brasil e da América Latina. Como todos concordaram que seria necessário conhecer profundamente o ritual dos Trabalhos Secretos da Ordem DeMolay, tanto no grau Iniciático quanto no grau DeMolay, sugeriu-se e aprovou-se que todo postulante à investidura, todo Irmão Servidor, provasse conhecer, memorizado, os juramentos de ambos os graus. Na época ainda não era costume exigir o exame de proficiência, o que demandou um certo esforço para aqueles que queriam receber as Ordens. Era uma forma de valorizar a Cavalaria e também relembrar o antigo costume da “vigília d’armas”.

     Veio o dia quatro de setembro de 1993, sábado. Os DeMolays chegaram cedo pela manhã: eram mais de 150 Irmãos. Todos foram separados e identificados por idade, pois os maiores de 19 anos também receberiam o grau do Ébano. Logo, os DeMolays perceberam que ser um Nobre Cavaleiro significava estar a serviço da Ordem DeMolay: aqueles aprovados no exame de proficiência realizado perante os “Cavaleiros Investidores” receberam a incumbência de examinar os demais postulantes. Dessa forma, todos participaram ativamente da investidura.

     Os candidatos foram levados ao Templo Negro dos Cavaleiros Kadosh enquanto o Convento iniciava sua primeira convocação ritualística da história DeMolay, no Templo Nobre do Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito, que, até aquela data, só havia sido utilizado para concessão do grau 33º.

     Um feliz “incidente” acabou criando uma tradição da Ordem da Cavalaria no Brasil. O malhete do Ilustre Comendador Cavaleiro seria emprestado por um Capítulo DeMolay, mas, como todos estavam preocupados com a chegada dos Irmãos de todo o país, ele acabou caindo da bolsa e não chegando ao Convento. Como procederíamos sem um malhete? Por sugestão do Tio Ney, foi utilizado um punhal em seu lugar, o mesmo punhal usado pelos Soberanos Grandes Comendadores do Rito Escocês para comandar as reuniões. Por ocasião da instalação do segundo Convento, foi-lhe entregue outro punhal de presente e solicitado que preservasse esse costume.

     A primeira investidura da Ordem da Cavalaria no Brasil também foi um marco histórico para a Maçonaria Brasileira, pois, pela primeira vez desde 1927, um dirigente do Supremo Conselho do Brasil do grau 33º para o Rito Escocês Antigo e Aceito (São Cristóvão) e um dirigente do Supremo Conselho do grau 33º do Rito Escocês Antigo e Aceito para a República Federativa do Brasil (Jacarepaguá) estiveram juntos, sentados lado a lado, no mesmo Oriente de um Templo Filosófico do grau 33º. Naquele mesmo Oriente estavam Moacyr Arbex Dinamarco, Venâncio Igrejas, Alberto Mansur e Ney Coelho Soares, tendo um DeMolay ao centro da mesa: Sir Yatã Gomes Ferrer, primeiro Representante DeMolay do Brasil.

     Foi assim que, de uma simples idéia e sonho de tantos DeMolays, os Nobres Cavaleiros surgiram e se expandiram no Brasil, superando todas as expectativas. Hoje temos a mais atuante e pujante Ordem da Cavalaria do mundo, o que com certeza deixaria o nosso Tio Land muito orgulhoso.

     Muito devemos ao Tio Moacyr Arbex Dinamarco, que, pela criação do Convento “Sir Percival de Gales”, foi o primeiro maçom brasileiro a receber a Chave de Zorobabel. A ele devemos toda inspiração e amor, toda a garra e espírito de perseverança dos Nobres Cavaleiros. Tio Ney foi, na verdade, o primeiro Ilustre Comendador Cavaleiro do Brasil, pois ele investiu todos com o genuíno espírito da Cavalaria, das tradições militares e da tradição filosófica maçônica.]
 
 
Referência Bibliográfica
"Manual de Práticas Ritualísticas da Ordem da Cavalaria" - 1ª Edição - 2009 - SCODB
Editora Sete Virtudes